Ao revelar que o governo dos EUA mantém um programa de vigilância virtual, o técnico Edward Snowden, ex-funcionário da consultoria Booz Allen, abalou a reputação do presidente americano, Barack Obama, e de grandes companhias digitais daquele país, como Apple, Google, Facebook e Microsoft. Além disso, deixou clientes corporativos e consumidores do mundo inteiro preocupados com a violação de suas informações. A denúncia de Snowden alerta para o perigo de poucas corporações – e todas de um mesmo país – controlarem boa parte do tráfego mundial de internet, segundo o finlandês Mikko Hyppönen, diretor da empresa finlandesa de segurança digital F-Secure, que faturou € 157 milhões em 2012 e atua em 20 países. “Os EUA abusam do acesso privilegiado aos dados digitais do mundo inteiro”, afirma. “Há uma fenda entre esse país e o restante do planeta.” Nesta entrevista à DINHEIRO, Hyppönen, que já prestou consultoria sobre segurança virtual para o Exército americano, também analisa a guerra virtual entre países e o grau de vulnerabilidade das companhias que usam computação em nuvem. Para ele, um dos problemas atuais é a ausência de uma legislação internacional para os delitos cibernéticos.
DINHEIRO – Edward Snowden, ex-funcionário da consultoria Booz Allen, denunciou que o governo dos EUA espiona dados de usuários de grandes empresas de internet, como Google, Facebook, Microsoft e Apple. Como fica a imagem dessas companhias digitais a partir de agora?
MIKKO HYPPÖNEN – Isso prejudica a imagem delas. É por isso que todas negaram ter colaborado com o governo nesse episódio.
DINHEIRO – Mas informações e dados de clientes corporativos e consumidores do mundo inteiro estão nos servidores dessas empresas.
HYPPÖNEN – Realmente não sabemos o que a inteligência dos EUA está fazendo com as informações coletadas. O objetivo alegado é encontrar terroristas. Sabemos, no entanto, que eles estão interceptando o tráfego de internet, principalmente o que envolve um número incontável de empresas estrangeiras. E sabemos também que, em outras ocasiões, as agências de inteligência repassaram dados roubados para as empresas locais, a fim de ajudá-las nos negócios. Há uma fenda entre os EUA e o restante do planeta. O país abusa do acesso privilegiado aos dados digitais do mundo inteiro. Os americanos parecem não ter qualquer problema com a vigilância generalizada de usuários inocentes, desde que essa vigilância seja feita em cima de estrangeiros. O problema, claro, é que nós, estrangeiros, constituímos a quase totalidade da população do planeta. Em um Estado de vigilância, todo mundo é considerado culpado.
DINHEIRO – Por falar nisso, antes mesmo da notícia da espionagem patrocinada pelo governo americano, já havia quem considerasse um risco à privacidade o fato de empresas como o Google e o Facebook, pela audiência que possuem e pelo tipo de serviço prestado, terem acesso a informações de bilhões de pessoas.
HYPPÖNEN – Aparentemente ainda deve haver pessoas que não veem problemas nisso. Acreditam ser perfeitamente aceitável que toda a informação dos brasileiros esteja nas mãos de uma ou duas empresas americanas. Empresas como o Facebook e o Google sabem mais sobre nós do que os governos. Ainda assim, muitos não se importam. Parece que é o jeito como as coisas devem acontecer. Eu não tenho perfil no Facebook. O Google, por sua vez, é um site muito difícil de evitar.
DINHEIRO – De onde partem os ataques virtuais a governos e empresas?
HYPPÖNEN – A maior parte dos ataques criminosos vem da Rússia, Ucrânia, Belarus, Estônia, Romênia e Lituânia. Há também muitas ações vindas da China e da América do Sul. Essas gangues são realmente virtuais – seus membros não se comunicam no mundo real, não se conhecem pessoalmente e não confiam uns nos outros. Eles apenas se juntam e trabalham em prol do benefício próprio. É diferente do crime organizado.

O amplo acesso a informações pessoais de usuários por empresas
de internet é um tema polêmico
DINHEIRO – Muitas empresas têm receio de usar a computação em nuvem, cujos dados ficam armazenados na internet. Esse sistema é seguro?
HYPPÖNEN – Sistemas baseados em nuvem têm duas questões a serem observadas: a primeira é a segurança técnica e a outra é a privacidade. Quando uma informação vai para a nuvem, ela não é mais sua. Você precisa acreditar cegamente no seu provedor. Um exemplo: quando uma empresa deleta um arquivo, que garantias ela tem de que o provedor realmente apagou essa informação? Ele pode apenas estar retirando a informação do sistema do cliente e continuar com os dados guardados em seus servidores. O cliente nunca vai saber. Isso, porém, é relativo e tem a ver com a privacidade. No que se refere à segurança, muitas vezes a nuvem pode representar uma proteção muito maior do que aquela que a empresa teria, caso usasse um servidor próprio.
DINHEIRO – Muitos especialistas acreditam que estejamos vivendo uma guerra virtual entre países, com ataques e espionagem pela internet. Quais os riscos que as companhias privadas correm diante desse cenário?
HYPPÖNEN – Os ataques virtuais a países são de dois tipos. O primeiro é para roubar informação, é espionagem. O outro é para prejudicar empresas de serviços essenciais ou estratégicos, como as dos setores de energia, comunicação, água e alimentação. Muitos países já perceberam isso.
DINHEIRO – Os tablets e os smartphones já são alvos dos hackers?
HYPPÖNEN – Em aparelhos móveis, o maior alvo são os dispositivos com o sistema operacional Android, do Google. Em Windows Phone Blackberry e iOs, o número de ataque é nulo. No Android, o maior risco são os aplicativos falsos. Você baixa um software que é igual ao oficial, mas na verdade é um vírus. Hoje, os principais alvos são usuários de dispositivos móveis na Rússia e na China.
DINHEIRO – É possível concluir, então, que os brasileiros estão mais seguros nesse aspecto?
HYPPÖNEN – No Brasil, há alguns ataques a equipamentos móveis, mas em menor número. Mas o curioso é que o primeiro vírus para celulares, ainda no sistema Symbian, da Nokia, foi escrito por um hacker chamado Lasco, que é brasileiro.